1. THE SUNDAY TIMES
Lily tinha uma pontaria instintiva. Era do tipo que não precisava perder tempo mirando, como a maioria dos atiradores. Bastava fixar seus olhos em algo e o alvo já estava condenado, eram sua mira a laser.Com um movimento certeiro, lançou um cutelo acertando em cheio entre os olhos de David Cameron. Desejara que a lâmina atingisse exatamente aquele ponto, mas sabia que o golpe havia sido fruto tanto da sorte, quanto de sua precisão.
Ainda furiosa, levantou-se de um salto e recolheu as seis facas de cozinha que havia fincado em duas tábuas de corte onde prendera seis fotos de políticos e personagens famosos recortadas aleatoriamente do caderno a cores doSunday Times. As tábuas estavam penduradas em cordas como alvos na parede dos fundos da cozinha.
— Como ousam? — Disse ela, dirigindo-se às fotos. — Como podem permitir que o abuso de crianças aconteça bem debaixo de seus narizes sem fazer nada a respeito?
Leon Brittan teve uma faca de carne em seu olho direito, mas orgulhava-se mais do modo como acertara Cameron. Embora o fato de acertar uma fotografia há dois metros de distância com simples facas de cozinha seja uma façanha por si só, especialmente sem praticar desde que saiu de Bangkok.
Lily não era uma mulher qualquer.
Ela havia praticado artes marciais na Tailândia, sua terranatal, e dedicara-se também ao arco e flecha. Atirar facas ou objetos pontiagudos foi algo que aprendera ao acaso, por não poder praticar tiro com arco em seu apartamento, tanto em Bangkok quanto em Londres. Ainda era estudante de medicina, mas conseguira uma posição no Hospital Great Ormond para crianças carentes por dois anos.
Ainda tinha um ano pela frente.
Seu inglês era bom desde os tempos de escola, o que foi bastante útil para ela já que seus estudos de medicina a obrigaram a ler inúmeros livros e artigos, todos em inglês. Para aperfeiçoar-se passou a ler semanalmente oSunday Timesda primeira à última página. Naquele dia, havia lido sobre os supostos círculos de pedofilia em atividade na Dolphin Square e em alguns orfanatos, abrigos e hospitais por todo o país.
Margareth Thatcher e Jimmy Savile foram atingidos na cabeça pela quarta vez por facas de carne. As lâminas haviam se cravado com tanta força que ainda vibravam dada à ferocidade com que haviam sido arremessadas.
Domingo era o único dia da semana que ela sabia que sempre teria livre, por isso ainda vestia seu pijama feminino. Ela também tinha direito a mais um dia de folga na semana, mas, muitas vezes, preferia tirar dois meios dias ou abrir mão da folga e trabalhar. Não tinha muito o que fazer em seu tempo livre. Ainda não havia feito amizades em Londres, embora, ocasionalmente, saísse à noite com seus colegas de trabalho.
Para ela, isso não era um problema, tornara-se uma pessoa bastante solitária desde que os abusos que sofrera de seu tio começaram quando tinha apenas onze anos, metade de sua vida atrás, e adorava seu trabalho e o convívio com as crianças. Lily era pequena, mas ainda mantinha seu rosto de criança. Na verdade, muitas das crianças do hospital pensaram, ao conhecê-la, que ela era uma paciente vestida de enfermeira,embora fosse uma estudante de medicina.
Arremessou novamente as seis facas contra as seis fotografias e voltou sua atenção para o longo artigo sobre o esquema de abuso infantil.
Eram citados supostos casos dos anos 70 e 80, mas ela havia nascido em 1993 e aqueles nomes não significavam nada para ela. Os únicos políticos de quem havia ouvido falar quando mais nova eram Margareth Thatcher, Tony Blair e George Bush, que el